quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ânsia...

A ansiedade é como uma mochila que trago. Acabo usando sempre. Carrego como um órgão. Abro pra pegar algo, fecho quando já peguei, guardo coisas lá dentro, escondo outras no bolso, costuro quando rasga nos ombros, fecho o ziper quando saio de casa. Essa ansiedade que se escora em meus fardos, que me redime da culpa, que visita meus sentidos, que carrego como cruz e por vezes chicoteio a pele sangrada, moída, calejada. Essa ansiedade que transpasso entre os braços feito pêndulo em minhas costas. Esse calor incandescente que fulmina minha nuca, que se espalha em meus poros, que arrasto como amuleto. Ansiedade minha. Do desejo da sorte, do convite ao açoite, da reza que grita em mim, da sina algoz sem fim. A ansiedade é como uma mochila que trago. Presa no corpo, na roupa, no osso.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Travesseiro.

Sintoma de felicidade é presságio do medo que invade!

É sim. Ser feliz dá medo. Estar feliz periga o sorriso na boca. Parece ser pessimismo esse tal par da plenitude. Engraçado. Eu não concordo com nada disso. Apenas constato. Todo mundo fica nesse estado quando se está feliz. Ou não? Será que sou obsessivo por constatações? Pondero tudo? Os prós e os contras... causa e efeito...e fico deitado no travesseiro? É... Natal sempre ativa a tecla da reavaliação. E o terceiro travesseiro que o diga.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Empurra-me.

Em cima do muro juro.
Dos tijolos que mesmo fiz, durmo.
Bela vista que mesmo criei, curo.
E a vontade de pular sem para-quedas.
Juro, durmo, curo.
Mas continuo em cima do muro.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Engasgo

Aqui vazio.
Cheio de choro
Aqui vazio.
Cheio de culpa.
Aqui vazio.
Cheio de inércia.
Aqui vazio.
Cheio de ar.
Aqui cheio.
Esvaziando
Três pontinhos.
Oco.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Quem tem boca fala o que quer!


Esse dito popular, frase clichê, ditado desmedido, desaforo acomodado, ou sei lá como queiram chamar, desce seco em mim. Goela à baixo. Violento e não mastigado. E eu me pego assim ferido, assim fadado, assim doído. E me dizem: fique calmo, é um aviso. Essa coisa de falar, de dizer, de cuspir palavras ao vento nunca foi a minha. Essa tara de julgar, comentar e redizer me alucina, me entristece, repugna. Esse vício de jogar letras em frases descontínuo, desregrado, destemido fere o ouvido. Cega o instinto. Cala o ânimo. É preciso bom senso. Cada vez vejo menos. É preciso cautela. Sinto alvoroço. Essa capacidade do ser humano de cuspir palavras, digo cuspir porque é só o que se vê: opiniões infundadas, desrespeita o próprio dom da fala. Todos dizem o que querem, cospem o que querem, assim irresponsáveis, sem o mínimo cuidado com a própria boca, língua, fala solta. Pois é... Se quem tem boca fala o que quer... É bom que não pense pra falar... Continue cuspindo o seu talento de papagaio porque em terra de bocas quem pensa é rei.

O apagão.


Minha cabeça fervilhava. Há dias fervilhava. Toca o telefone. Há meses fervilhava. Toca o telefone. Há anos fervilhava. Alô! Atendo com vontade de desligar. Volto a enlouquecer. Tenho notado que enlouqueço todos os dias. Um certo eu de mim mesmo me perturba volta e meia. É mais forte do que eu, mais veloz que a emoção, mais feroz que a razão. Algoz do meu instinto de bicho. Incoerente. Inconsciente. Impaciente. Irritante. Íntimo. Híbrido. Ah! Quantos adjetivos cabem nele! Esse meu íntimo complexo, convexo e tão frágil, sujeito às mais terríveis ofensas desse cérebro descabido, falido e descolado por vezes de mim. Enquanto fervilho o juízo, fervilhava o castigo já morno e sem sentido. Romance da vida a só. Sozinho no escuro devaneio. Apagam-se as cores, os sons e os sentidos. Na rua um barulho no poste. Apagam-se as casas, as luzes e as salas. Da minha janela agradeço o apagão. Era disso que precisava: falta de luz para enxergar por dentro. Um fósforo, uma vela, candeeiro nos olhos e desenhado em preto, na parede, descubro minha mão. Vejo que a sombra ali refletida é a pura essência daquilo que sou, fui ou ei de ser: um contorno de formas, fôrmas, rugas e manhas. Vou enlouquecendo, surtando, sofrendo, gerundiando já que não paro de fervilhar. E viro crosta no osso. Sem direito à reformas ou coisa parecida. Destinado à cinzas desde que, assim, desligue meu fogão.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Trampolim

Que essa válvula não se escape por semicoisas de mim. E se ao acaso estrago é porque corres de um fim. Se o que é brando fervilha num lapso é porque sofres aqui. Se não me afago em seu traço é porque risco os afins, descolo os pedaços e me explodo assim: de mim. Vontade de comprar um espelho. Ou então um trampolim? Ai de mim.